sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Minhas mãos

(imagem da internet)


Tenho mãos de cozinheira. Unhas sempre aparadas, bem lixadas e quase nunca esmaltadas, para garantir boa higiene. No entanto, com as pontas dos dedos quase sempre escuras, manchadas de nódoa de casca de batata ou cenoura. Faz parte.
Tenho mãos de padeira. Apesar de um pouco tortas, por causa da artrose, elas trabalham, ligeiras e eficientes, entre tapas e carinhos, a massa de trigo, óleo e água, até que ela se renda ao toque e esteja pronta para virar pão.
Tenho mãos de confeiteira. Adoro misturas saborosas, de diferentes formatos, doces ou salgadas, que sejam saborosas, mas pouco calóricas, como convem a quem se pauta pelo conceito de alimentação saudável.
Estou sempre na cozinha, preparando gostosuras para família e quem chegar; por isso, olho muito para minhas mãos. Já estão se pintando devagar, por causa da idade, mas as vejo amorosas, ágeis e, depois de tanto tempo de forno e fogão, hábeis na feitura delicada dos alimentos.
Outro dia revi um filme, It's complicated (em português, Simplesmente complicado), com Meryl Streep - sempre maravilhosa! -, um Alec Baldwyn fora de forma, mas ainda bonito, e o competente Steve Martin. É uma comédia romântica, na qual a personagem de Meryl viveu por um tempo na França, onde aprendeu confeitaria com os mestres de lá. Há uma cena linda, início do envolvimento entre ela e o personagem de Steve Martin, ambos divorciados e em busca de uma relação leve e prazerosa. Ela o leva, de madrugada, até sua confeitaria, ele pede um croissant de chocolate. Aí começa um movimento rápido de cenas cheias de risos, toques de mãos, ela ensinando, ele aprendendo, uma cumplicidade deliciosa que termina com os dois saboreando os croissants, quando, então, ele lhe toma a mão delicadamente e começa a olhar e a beijar as pequenas marcas deixadas pelo tempo e pela vida passada na doceria. Emocionante!
Descobri que gosto muito das minhas mãos e que cozinhar é um ato carregado de sensualidade. Fiz a escolha certa!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

De volta ao começo

(imagem do google)

Sei que é verso de canção popular, mas dele me aproprio para nos remeter ao dia 01/06/2010, quando publiquei um texto com o título COMEÇANDO PELO COMEÇO. A intenção era - e é! - a de mostrar àqueles que têm medo de 'enfrentar' a cozinha, por julgarem que não sabem por onde começar, que cozinhar é uma questão de gosto: começa-se e não se quer mais parar. Acreditem: comigo foi assim.
Naquela postagem, falei sobre os utensílios necessários a quem se dispuser a 'tomar coragem e mexer o caldeirão'. Cozinha montada, vamos ao que interessa.
Hoje começo a falar sobre pratos simples de preparar. Vocês gostam de macarrão instantâneo? Muito fácil de fazer. Aí, me perguntarão: mas você não é a advogada da alimentação saudável? Sou, e na minha casa se come macarrão instantâneo, quando o tempo está curto para caprichar numa refeição mais elaborada.
A massa do macarrão instantâneo - de qualquer marca - é um alimento bastante leve, feito com sêmola e água e que quase não tem sabor; tão leve que cozinha em três minutos. O problema é aquele pacotinho prateado, cheio de substâncias artificiais, que vem junto, a guisa de tempero. Ali está o veneninho, em dose não-homeopática. Em especial, um vilão chamado glutamato monossódico, que sobrecarrega nossos rins de trabalho. O que fazer?
Meu filho adora macarrão instantâneo e costuma me pedir para fazer 'miojo rico'. Trata-se da massa preparada em forma de sopa com a adição dos meus temperos, ou seja, sal ou molho shoyu, cheirinhos verdes em quantidade, um dente de alho amassado, cebola picadinha e ervas a gosto - as que tenho em casa. Junta-se um tomate picadinho em cubos, sem pele e sementes, um pouquinho de couve cortada fininho - ainda segundo meu filho 'couve cabelinho de anjo' -, se tiver, batatinha, ou cenoura raladinhas, uma pimenta para quem gosta e está pronta uma sopa saborosa, rápida e nutritiva. Boa para se comer à noite, ficar satisfeito e não ter pesadelos.
Gostaram? Pois é, o negócio é inventar, tentar e fazer receitas diferentes com esta sugestão.
Uma dica preciosa: massas não devem ser ingeridas com molho de tomate, ou proteína animal - isso quer dizer carne bovina ou suína, frango e/ou similares. A mistura fermenta e... engorda!
Japoneses raramente apresentam problemas de obesidade. Japonês gordo geralmente é lutador de sumô. No geral, é um povo esbelto e isso tem a ver com genética, sim, mas também com hábitos alimentares. Eles gostam muito de comer macarrão instantâneo e, além da massa, acrescentam vegetais exóticos (para nós!), como raiz de bardana, muito boa para a digestão, gengibre, cheiros verdes - que plantam nos telhados, por causa da falta de espaço. E, vez por outra, pedacinhos de peixe cozido e bolinhas de arroz - lá tem muito dos dois! O interessante é que, diferentemente de nós, eles comem os sólidos com hashi, aquele par de palitinhos que nos parece tão difícil de manusear e, ao final, bebem o caldinho na própria tijela, sem qualquer cerimônia.
Já dá para se aventurar, não acham? Então... ao miojo!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Como vão vocês?



(imagem do google)

Precisei de um tempo. Todos precisamos, vez por outra. Para renovar energias, 'recarregar baterias' e redirecionar metas. Agora estou de volta. E como vão vocês?
Estou bem. Passei um período mais longo no sítio e tive o privilégio - isso mesmo, privilégio! - de acordar para lindas manhãs de céu azul, com o cheiro das flores das mangueiras inundando minhas narinas ao abrir a porta do quarto. E a paz inundando minha alma. Tivemos problemas com abastecimento de água por lá - uma espécie de racionamento temporário -, o que foi muito desagradável, por um lado, mas que nos deu a exata dimensão do quanto temos que continuar a proteger o meio ambiente e cuidar de nossa fonte de vida. Não chegamos nem perto da ideia do que seja a falta absoluta de água, de como sofrem nossos irmãos planetários de outras regiões, próximas e distantes, por não disporem de uma ração mínima deste tesouro.
Enfim, estou aqui, e volto a blogar. Quando comecei, obrigava-me a postar todos os dias, o que também me deu muito prazer, podem acreditar -, até que cheguei à conclusão de que não desejava mais uma obrigação, entre as inúmeras que já tenho. Por isso, aviso: postarei sempre, daqui para frente, mas a intervalos. Vocês merecem o melhor do que posso oferecer e continuo pesquisando e testando coisas novas para divulgar aqui. Acho mais sensato trabalhar assim: com muito prazer e disposição. O que vocês acham?
Continuo contando com meus queridos seguidores e com a possibilidade de ofertar informações úteis e boas - sem fanatismo! - com humor e delicadeza.
Até mais!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Adeus, José!

(foto de Pilar del Rio, viúva de Saramago, no google)


Luto na cozinha: Saramago se vai para outro plano e a literatura portuguesa fica um tanto mais pobre!... Ele, certamente, continuará vivo em sua obra; o luto é pelo que ainda tinha para dizer e fazer, com brilho e dignidade!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sabores a dois

(imagem do google)


Interrompo minha 'composição de cozinha' para um breve intervalo dedicado ao Amor. Ah, ao amor... Estaremos todos, com certeza, celebrando, de alguma maneira, o Dia dos Namorados no próximo sábado, 12/06. Nosso namoro com a vida, presente dos deuses. O namoro com os amigos, espelhos a refletirem o melhor de nós. O namoro com o namorado ou namorada, amante, marido, mulher, fruto saboroso de nossas escolhas. O namoro com lugares especiais, perfumes que nos recordam algo, visões que nos arrebatam, sonhos que nos revelam.
Pois deixo aqui, para celebrar este dia, duas receitinhas afrodisíacas, para saborear a dois. Prepare o clima: vista uma roupa bonita, ponha um cheirinho especial atrás do lóbulo da orelha - território de sussuros e delícias! -, apague as luzes e acenda as velas, espalhe flores vermelhas, ponha música no ar. Se o tempo estiver frio, aqueça o ambiente. Cubra a mesa com renda, ou seda, gele levemente o champanhe e, last but not least, estimule os apetites com uma comidinha preparada com paixão e especiarias, cuja degustação gere um estado de euforia e aumente o desejo.
Mãos à obra:
SALMÃO COM ERVAS
300 g de filé de salmão (2 filés de 150 g)
sal e pimenta-do-reino
1 colher de sopa de azeite extravirgem
1 dente de alho laminado
1 colher de chá de vilho branco
4 colheres de sopa de caldo de legumes (natural!)
1 colher de sopa de ervas (alecrim, salsa, estragão)
2 aspargos brancos em conserva
2 ovos de codorna cozidos
1 colher de café de amido de milho
4 ervilhas-tortas cozidas no vapor
Tempere o salmão com sal e pimenta. Aqueça o azeite. Sele o filé de salmão pelos dois lados e reserve. Adicione o alho e doure. Coloque o vinho branco e deixe evaporar. Adicione o caldo de legumes. Acrescente as ervas, coloque os aspargos, os ovos e o salmão e deixe cozinhar por 3 minutos. Adicione o amido de milho dissolvido em um pouco de água. Se necessário, corrija o sal. Sirva guarnecido pelas ervilhas-tortas.
Para sobremesa,
CARPACCIO DE ABACAXI
4 colheres de sopa de açúcar
2 xícaras de suco de laranja
1 cálice de licor de laranja (tipo Cointreau)
1 pau de canela
3 cravos-da-índia
6 rodelas finas de abacaxi
folhas de hortelã
Aqueça o açúcar e faça uma calda. Junte o suco de laranja, o licor, a canela e os cravos. Deixe engrossar novamente. Tire do fogo e mergulhe as fatias de abacaxi. Deixe descansar por 12 horas. Retire, enfeite com hortelã e sirva.
Nem me conte o resto....

Ambas as receitas fazem parte do livro 'Receitas afrodisíacas', do chef Allan Vila Espejo, recentemente publicado no Brasil por Editora Melhoramentos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Começando pelo começo

Quem já se converteu à confraria dos que desejam preparar seu próprio alimento sempre que possível, para comer melhor, apreciar o prazer da boa mesa e garantir a saúde, ofereço aqui algumas informações básicas. Que não se assuste quem pensa que 'boa mesa' significa 'sofisticação'. É na simplicidade que mora o segredo de uma comida bem feita. Bom cozinheiro é quem faz aquele arroz divino, um feijãozinho que ninguém esquece, uma salada que enche os olhos, um omelete com a textura certa, enfim, quem confere criatividade e capricho ao ato de preparar o alimento.
Comecemos pelo começo: a escolha dos utensílios. Mesmo que já se tenha em casa uma porção de objetos, geralmente pouco usados, os quais, muitas vezes, nem sabemos para que servem, comprar uma coisinha ou outra, de preferência bonita, não necessariamente luxuosa, dá ânimo extra a quem vai se iniciar. Assim, aqui vão algumas sugestões.
Prefira panelas de aço inox, vidro, ágata, ferro, barro ou pedra-sabão. No caso das três últimas, uma higienização criteriosa é absolutamente necessária, pois tendem a guardar resíduos com mais facilidade que as outras. As minhas são de inox - e tenho uma boa panela de barro para os peixes e uma de ferro para o feijão. Nada de usar panela de alumínio: ela deixa resíduos tóxicos nos alimentos e suspeita-se que o acúmulo de alumínio residual no cérebro seja um dos desencadeadores do mal de Alzheimer. Cuidado com as anti-aderentes (com hífen após a reforma?): se o teflon começou a sair, está, fatalmente, indo para o alimento. É preferível que sejam substituídas com maior frequência, se optamos por panelas fáceis de higienizar. Importante: jamais guarde alimentos na geladeira em panelas de alumínio! Transfira-os para outro recipiente, caso você não substitua todas as suas panelas deste material imediatamente. E antes de usar suas panelas de barro e pedra-sabão, unte-as com óleo e leve-as ao fogo por algum tempo para que 'curtam'. Em seguida, refogue cebola ou alho no fogo baixo e estarão prontinhas para serem usadas. Simples assim.
Panelas de pressão retêm todos os elementos nutritivos que escapam com o vapor quando outros métodos são utilizados. São boas para preparar cereais e carnes.
Panelas para cozinhar no vapor preservam mais os nutrientes, exceto as vitaminas, que geralmente se perdem, ou são muito reduzidas em qualquer cozimento. Não tenha receio: o cozimento é tão rápido quanto o cozimento em água.
Colheres de pau são ideais para quem deseja preservar suas panelas e não contaminar os alimentos. Capricho na higienização!
Quanto às facas, é bom investir em poucas, mas boas peças: um bom par de lâminas médias e uma serrilhada. E tenha sempre à mão um afiador de facas de qualidade.
Vidros são os melhores recipientes para estocar alimentos. Como as pesquisas sobre dioxina - uma substância tóxica existente em alguns tipos de material plástico - ainda não são conclusivas, melhor se prevenir. As lojas de artigos de preço único têm boas e baratas opções de vasilhas de vidro. E são bonitas, enfeitam geladeira.
Uma boa escovinha - sempre limpa! - para escovar tubérculos e retirar sujeira, terra residual e microorganismos é sempre bem vinda. Após o uso, deve-se lavá-la e guardar dentro da geladeira.
Este assunto continua...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Cozinhando.com.br

Quando nascemos no planetinha azul, já trazemos para cá alguns itens de série, incluídos aí os cinco sentidos. Três deles, na minha modesta opinião, estão diretamente envolvidos com o ato de comer: visão, olfato e paladar, necessariamente nesta ordem. Primeiro, comemos com os olhos, porque comida bonita, colorida, servida em louça primorosa é algo muito sedutor. Para aqueles que não dispõem deste sentido, seguem-se dois igualmente fundamentais: cheiro bom, aroma mesmo, perfumes que lembrem a infância, a casa da avó - no meu caso, da mãe -, as festas de família, são um convite irresistível. Assim predisposta, a boca se abre e prova a delícia. Ah, o paladar! Gula, amigos, só é pecado quando se come além da conta e vai perdendo o perfil.
No entanto, há gente que vive no piloto automático até para comer. Está com a própria tomada tão ligada em outros assuntos, que não desfruta deste prazer. Se perguntamos à pessoa: "E aí, como foi o almoço?", ela responde "Bom...", assim, meio sem-graça. Se insistimos, nem se lembra do que acabou de comer. Isso sim, é pecar por omissão: a pessoa não estava lá, não relaxou, não entrou em sintonia com o momento e deixou passar o 'cavalo selado', como diz minha amiga.
Há também aqueles que morrem de medo de entrar numa cozinha. Arranjam mil desculpas, já introjetaram a idéia de que cozinhar dá trabalho demais, gasta tempo, não é tão interessante, enfim, querem distância das panelas e do fogão. Tenho uma suspeita: acho que é porque não sabem por onde começar.
Por outro lado, às vezes me surpreendo: hoje, bem cedinho, estava viajando do sítio para BH de ônibus, e fiquei ouvindo uma conversa animada sobre comida entre duas senhorinhas bem falantes, ambas muito simples, gente 'da roça' como se costuma dizer. Então, uma delas começou a falar do preparo de uma feijoada e disse algo que me deixou encantada: "Eu faço assim, frito bem os pertences, até tirar toda a gordura, escorro bem, depois coloco no feijão já temperadinho com 'o meu' (cheia de orgulho!) tempero. Porque, minha filha, aquele tal de sazon não uso, não, aquilo é um veneno!" Quase levantei e bati palmas. Vá lá que feijoada não é bem o que se pode chamar de 'iguaria leve' - apesar de gostosa! Porém, valeu pela constatação de que lá já aportou o conhecimento e a consciência em relação ao aditivo industrializado.
É isso: muitos não apreciam o prazer de cozinhar e se esquecem imediatamente do que comeram porque, na ânsia de 'tornar tudo mais fácil e rápido', usam coisas que acabam por viciar o paladar, o olfato e não seduzem a visão. Além de comprometerem a saúde.
Comecei a gostar de cozinhar com minha mãe, como já contei aqui. Mas, também, porque faço questão de ingerir um alimento sadio e sei que a comida que eu preparo para mim, minha família e os meus mais caros, tem essas características: a higiene, a escolha dos ingredientes, a combinação das substâncias favoráveis à saúde e a imprescindível pitada de amor por tudo.
Tenho certeza que, se as pessoas começarem a prestar mais atenção ao que comem e tomarem coragem para entrar na cozinha sem medo ou preconceito, daqui a pouco estarão degustando algo que faz a diferença. Escolher os utensílios, começar pelo mais simples, que afinal de contas, é o mais saboroso, é uma boa iniciação à arte da culinária e um mimo que fazemos por nós, na manutenção da saúde. Que tal?