quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Você já é slow?

(imagem da internet)

Em julho de 2003, uma das revistas do núcleo SuperInteressante da Editora Abril, com o título vida simples - assim mesmo, em minúsculas - publicava uma matéria entitulada Slow Food: o prazer de volta à mesa, um novo conceito em termos de alimentação que, segundo a autora, Tatiana Achcar vinha "na contracorrente do fenômeno da produção e alimentação em massa, rápida e padronizada do fast food - ou 'gastro-anomia' (anomia é falta de qualquer regra), chiste criado pelo sociólogo francês Claude Fischler para explicar a mudança do comportamento alimentar depois do surgimento e consagração das redes de fast food."
Anteontem, meu marido chegou em casa com um exemplar do Bem Estar, jornal de coleção, Ano 2 - número 5, de fevereiro de 2001, editado pela Rede Bem Estar Qualidade de Vida, em Belo Horizonte, cuja matéria de capa tem o título DESACELERE-SE. Decidi reproduzi-la aqui porque julgo que este conceito é bem mais amplo e inclui alimentação, modo de vida, saúde e cultura.
Talvez tenha que dividi-lo em duas postagens, por ser um pouco longo. Vamos lá.

DESACELERE-SE

Um movimento mundial que passa por decisões individuais desafia um dos pilares da cultura global, a rapidez.
Viver no ritmo biológico natural, desfrutar momentos, optar pela qualidade são alguns dos benefícios da desaceleração.

Todos os dias pela manhã a agenda de compromissos do dia pisca intermitentemente em sua cabeça. Você pula da cama, sem o despertador tocar, sem se espreguiçar, sem dar bom dia. Nesse momento,começa a corrida contra o tempo, que - se tudo der certo - termina 13 horas depois. Pior do que isso: você chega e tem dificuldades de dormir, antecipando as tarefas do dia seguinte. Você vê a vida passar numa ampulheta e em contagem regressiva. Há alguns anos, o jornalista britânico Carl Honoré esperava no aeroporto, quando passou os olhos por um jornal e leu um artigo que começaria a mudar a sua vida. "Eu estava lendo o jornal e vi um artigo cujo título era 'Histórias para fazer dormir em um minuto'. No começo aquilo me deu um estalo. É uma grande idéia. Mas logo pensei: é ridículo. E, como jornalista, achei que tinha que escrever sobre esse tipo de coisa. Foi o que o levou a desenvolver o conceito de Slow Movement (Movimento Desacelerado)
Honoré, um ex-speedholic que tinha mania de trabalhar, comer e até ler história para seus filhos na beira da cama o mais rápido possível, descobriu uma resistência global contra a cultura da velocidade materializada em grupos que vêm repensando o cozinhar e o comer (o já conhecido Slow Food), o urbanismo, o design e até o sexo. Ao invés do "Tempo é dinheiro" contrapõem: "Mais tempo é mais vida". Ou seja, o slogan "Mais Devagar" não só descreve as investidas desses revolucionários dos tempos modernos, como parece mostrar que o contra-ataque está ficando cada dia mais organizado.
CALMA - UM MOVIMENTO MUNDIAL DE CIDADES
O movimento contra a pressa é mundial. A Itália deu o primeiro pontapé com a criação do slow food (comer lentamente, com prazer), que já conta com mais de cem mil associados mundo afora e tem filiais no Brasil. Daí surgiram as "cidades lentas" e os adeptos da vida numa outra rotação: pessoas trocando o carro pela bicicleta, a TV pela meditação, encontrando tempo para o lazer no corre-corre.
Já existem várias cidades adeptas do movimento na Itália (Orvieto, Positano, Fontanellato, Castelnuovo nè Monti), na Espanha ( Mungia), no Reino Unido (Ludlow, Alysham, Norfolk, Mold) e até no Brasil (Antônio Prado, RS e Tiradentes, MG).
O movimento Città Slow desenvolveu estatutos com os princípios de uma slow city e uma Carta de Associação ao movimento que deve ser assinada pela cidade que queira aderir. Só podem aderir ao movimento cidades com menos de 50.000 habitantes que respeitem os 55 critérios definidos nos estatutos. Estes estão divididos em seis categorias principais: políticas ambientais, qualidade do tecido urbano, situação dos produtos locais, hospitalidade e existência de sensibilização para o tema. Para poder apelidar-se de Città Slow a cidade deve ser avaliada e regularmente visitada por inspetores que garantem que os padrões sejam mantidos.
Sob o título "Devagar, por favor" a primeira edição do jornal El Pais Semanal de 2007 classificava o movimento Slow como a mais importante tendência para aquele ano, destacando que este elogio da lentidão é a forma de darmos resposta à velocidade vertiginosa em que vivemos atualmente.
As duas cidades brasileiras incluídas são Antônio Prado (RS) e Tiradentes (MG). O objetivo é resistir à homogeneização, apoiar a diversidade cultural e as especialidades locais. O Secretário de Turismo, Cultura e Meio Ambiente de Tiradentes, Marcelo Gomes, diz que a cidade de 7 mil habitantes não precisou mudar de ritmo para ser certificada - as características do bem-viver já estavam presentes. "Nossa preocupação é mantê-las", diz. A participação no movimento não diminuiu a atividade econômica. "Desde 2002, 17 casais que moravam em grandes centros, estressados, se mudaram para cá e abriram pousadas e restaurantes, gerando empregos", afirma Gomes.
A geógrafa Ciane Fochesatto, de 25 anos, funcionária pública em Antônio Prado, encaminhou a candidatura da cidade, que recebeu o selo slow city em 2001. "Temos um dos maiores patrimônios históricos do Brasil, com 48 edifícios tombados. Adaptamos todo o cotidiano à preservação dessa história e do meio ambiente urbano", relata. Segundo ela, a população resistiu à idéia num primeiro momento. "Aos poucos compreenderam a idéia e a adesão é praticamente unânime", descreve. A prefeitura lançou uma cartilha de educação patrimonial, desenvolveu coleta seletiva intensa, dedicou grande cuidado ao saneamento e implantou a educação ambiental nas escolas.
O movimento mundial de desaceleração está relacionado com a antiglobalização, o budismo, o ecologismo e o biológico, porque na essência o que defende é que sigamos os ritmos da natureza, dando tempo ao tempo. A alimentação saudável também é importante. Ingerir frutas, legumes e outros alimentos frescos e bem cozinhados. Comer com tempo, de preferência, num restaurante tradicional (ou em casa, preparando seu próprio alimento, grifo meu). Conversar e conviver com os amigos. Fazer exercício físico. Andar a pé. Apreciar e proteger o ambiente. Respeitar a cultura e as tradições. No fundo, levar uma vida calma e sentir-se bem no local onde se vive, é um desejo de muitos, num mundo cada vez mais veloz e exigente.
(Continua)

5 comentários:

Felipe disse...

Oi Angela,

Eu acho que não adianta as pessoas somente tentarem desacelerar a vida se elas não sabem onde querem chegar.

O que faz a nossa sociedade acelerar cada vez mais é a busca constante da satisfação dos desejos em detrimento da espiritualidade.

Enquanto as pessoas não desenvolverem a espiritualidade, qualquer coisa feita com o objetivo de acalmar a mente e levar uma vida mais simples e saudável ainda não será completa, pois em poucos minutos, um acesso de raiva ou ira, um apego excessivo, um ciúmes, uma contrariedade fará ruir todo o prédio e levará a pessoa de volta a ruina.

É somente com o desprendimento, o amor e a caridade, vinculadas com a busca interior, aí sim, conjugado com todos os outros esforços de saúde, higiene e alimentação é que vão fazer um efeito definitivo na vida das pessoas.

Porém, hoje em dia, a maioria não está ainda consciente disto.

Bloguinho da Zizi disse...

Angela
Quero ir prum lugar desses.
Adoraria desacelerar.
Mas nesta São Paulo hummmm.....

Sabia que os florais se tomam 4 gotas 4 vêzes ao dia que é para dar ritmo às pessoas?
Que as flôres (não todas claro) são as únicas no planeta que conseguem manter o ritmo dele, o pulsar dele, e por isso além de bem estar nos devolvem a serenidade e o compasso perdido?

Aguardo a continuação

Angela Fonseca disse...

Feli, concordo com você. Esta escolha passa por uma revisão dos valores. Não sei se você tem observado o início de um movimento, tímido ainda, das pessoas em busca de transcendência. O modelo capitalista está implodindo aos poucos e a mudança ocorrerá independente da vontade de alguns; o planeta vai se reciclando à revelia de seus habitantes. Obrigada pelo comentário rico de reflexões importantes para todos nós. Beijos.

Angela Fonseca disse...

Zizi, você já ouviu falar das ecovilas? Ilhas de bem estar no meio da loucura geral. Procure na internet, aí no estado de São Paulo há algumas. Beijos.

Regina Rozenbaum disse...

Minina dos céus...cridita que eu assinava essa revista??? Que li essa reportagem que operou grandes mudanças naquele ano de tantas dificuldades pessoais? Acho que os efeitos demoraram um cadiquim de anos...rsrs
2011 ano de???
Beijuuss n.c.